Alzira e a Mula Sem Cabeça   

Escrito e ilustrado por Kiki Hamann Download o Real Player  Em Breve ouça essa história em Real Audio!

 

Um belo dia.... Belo dia coisa nenhuma, estava chovendo sapos e morcegos torrados, mas enfim isto não vem ao caso.... Então, num dia horroso, eu vinha andando desgostoso de tédio que nem remédio de tosse que a gente cospe ! Queria mesmo ouvir uma boa história dessas que só a Alzira Zulmira sabe contar..... E lá estava ela, como sempre cercada de gente, sentadinha na rua, contando uma verdade nua e crua...

-“ Pois eu me lembro bem, foi num dia desses de temporal pessoal, que a mula deu na veneta e perdeu a cabeça, e o saci ficou perneta. ..”

 

Não resistindo, sentei no meio fio, com chuva e frio para escutar o bafafá. E Alzira contou a verdade mais escabrosa, a história mais real, onde uma mentirinha ou outra não faz mal ! Contou que no dia de São Nunca, ela fez uma malcriação sem razão, e por causa disso foi mandada pra cama de castigo. Ficou rolando na cama de pijama, sem conseguir dormir, de olhão aberto, sem piscar, tentando fazer o sono chegar. Mas nem precisou, porque São Nunca, com pena da Alzira, mandou o Curupira lhe visitar.

-“Salve Dona Alzira Zulmira, eu sou o Curupira, seu quase-escravo. Vá tratando já de se arrumar, porque eu não tenho toda a noite para ficar de tra-la-la. Ripa na chulipa, vamos sair para passear.”

-“Cruz credo, seu Curupira, isto não está certo. Não é assim que se cumprimenta uma senhorita do mais fino trato, que não é para o seu bico, seu ingrato !”

-“ Ora, não foi bem assim que contaram para mim.... Pelo que ouvi por aí, a Senhorita de Fino Trato andou fazendo malcriação.... Destratou a Dona Maroca, e armou a maior confusão.....”

-“A Dona Maroca, disse que eu estava contando lorota. Foi então que eu virei bicho e me atraquei nela que nem carrapicho. Perdi a cabeça, que nem a mula , e partir para cima daquela infeliz. Quem mandou meter o nariz?”

Depois de muita coversa fiada, Alzira Zulmira finalmente ficou pronta e saiu, ainda meio tonta, com o Curupira para passear. Falava que nem uma matraca, e já estava deixando o Curupira com a macaca.

- “Lá da onde eu venho, criança que faz malcriação, come pão com sabão ! Fica quieta tagarela, senão você vai ficar com o sabão entalado na goela !”

-“Não enche que eu te dou um cacete, e você nunca mais come sorvete !”

Alzira, inconformada por não saber onde estava sendo levada, perdera a paciência. Afinal, contar história é uma ciência, e o Curupira não tinha entendido nada, e ainda por cima queria andar de mão dada.

-“Sai dessa, Sô, ou eu conto pro meu avô ! Larga minha mão, que eu sei andar sozinha, desde quando você deu pra ser ‘fada madrinha’ ?”

E assim, aos trancos e barrancos, Alzira e Curupira, chegaram lá onde Judas perdeu as Botas. O tal lugar, era mesmo muito bonito, uma casinha na colina, com flores na janela e pé de siriguela. E se não fosse Alzira estar banguela, subiria naquele pé e lamberia os beiços !

-“Que lugar legal, Curupira, quem é que mora aqui nesta casinha tão bonitinha?”

-“Ora, como quem mora? Quem mora aqui sou eu, o meu irmão, o Saci, e a minha Mãe, Dona Mula Sem Cabeça."

-“Quem diria, o Curupira é irmão do Saci Pererê .... coitadinha da Dona Mula, não foi atoa que ela perdeu a cabeça, e antes que eu me esqueça, onde anda a sua Mãezinha, Curupirinha ?"

Dona Mula que estava ocupadíssima lavando as carapuças do Saci, ouviu o seu nome sendo chamado e veio correndo para ver que diacho estava acontecendo. Já chegou relixando, para colocar moral, acostumada com as trapalhadas que seus filhos se metiam.

-“Que que está acontecendo desta vez Curupira, que barulheira é essa? Será que eu não posso ter um minuto de tranquilidade na minha idade ?"

-“Não está acontecendo nada Mãe, é que eu trouxe uma visita que precisa muito ouvir seus conselhos , pois vive metendo o bedelho onde não é chamada e fazendo malcriação sem ter razão.”

-“Vê-se logo que você está em boa companhia . Minha filha, o que foi que você fez? Trate de desembuchar de uma só vez, que eu tenho muito o que fazer antes do amanhecer. A noite vou estar muito ocupada, correndo pela floresta assustando criança malcriada !"

E Alzira, com o beicinho tremendo, foi logo adiantando e tratou de ir contando com todos os detalhes como tinha atazanado a Dona Maroca, que pensando melhor nem era assim tão boboca.... E olhando para Dona Mula, deu graças a Deus que a sua Mãe não parecia em nada com ela, e se arrependeu de ser tão tagarela.

-“Sabe Dona Mula, acho que já passou, já entendi que fiz besteira e prometo não fazer mais nenhuma asneira. Juro por tudo o que há de mais sagrado. Juro até pela alma da Dona Maroca! Não vou mais dizer malcriação, sei que é uma falta de educação. Ao invés disso, vou só pensar, até a raiva passar, que pensamento não pode machucar.”

- “Muito bem minha filha, assim é que se fala, por um momento achei que a sua Mãe era uma candidata a perder a cabeça, como eu. Sabe como isso aconteceu? Foi num dia de temporal... eu corria na floresta atrás do Saci, que vivia roubando doce de criança para encher a pança. Como você, ele era muito malcriado, e não me obedecia, só corria. Aí eu pedi que São Nunca me ajudasse, pois apesar de ter quatro pernas, estava em desvantagem. E São Nunca me atendeu e fez lá uma mutreta e o meu Saci ficou perneta. Ah, ficou tudo mais fácil.....”

Alzira Zulmira deu uma suspirada, e olhou para as suas duas perninhas, tão lindinhas, aliviada! Ufa!!!

-“E como foi que o Curupira ficou com os pésinhos assim tão tortinhos e virados para trás? Ele me parece um bom rapaz !”

“Ah! Estava esperando você perguntar. O Curupira, era um fujão, nunca parava em casa, parecia até que tinha asa. Vivia cabulando aula e fugindo da escola. Todo dia trazia uma cartinha da professora e eu pegava na vassoura e corria atrás do moleque que sempre fugia serelepe. Aí, tive que pedir de novo ao São Nunca, que ajudasse uma Mãe aflita, cansada de tanta corrida. E ele então com a sua mágica, virou os pés do Curupira para trás para ele não fugir mais. Deu certo, agora quando ele pensa que está fugindo, na verdade ele está é vindo!"

E a Dona Mula, que tinha engatado a primeira, continuou sem parar de falar nem para respirar....

-“ O único probleminha com São Nunca é que ele é meio surdo, que absurdo.... e se a gente não tomar cuidado acaba acontecendo o inesperado! Quando eu disse que me deu na veneta que iria acabar perdendo a cabeça, ele entendeu que eu estava zureta e preferiria perder a cabeça. Dito e feito. Nunca mais vou ter minha linda crina para pentear, mas nunca mais vou agir sem pensar !”

Depois disso, Alzira voltou correndo para casa e jurou nunca mais fazer malcriação para a Dona Maroca. E isto não é lorota. Reparou também que lindos cabelos Dona Maroca tem! Não quer ver ela perder sua crina, nem mesmo quando azucrina. De agora em diante, as malcriações vão morar só nos seus pensamentos, só na sua imaginação que não é pouca, eu te garanto. Ah, mas parar de contar histórias ela não vai não. Isto só vai acontecer no dia de São Nunca !

Alzirêz!  Confira as palavras que você não entendeu!

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