O Tratado do Dever de Casa

Download o Real Player     Escrito e ilustrado por Kiki Hamann              Em breve ouça essa história em Real Audio

 

        - “Sambambaia.... Samambaia... Samambaia.....”  murmurava a Alzira Zulmira baixinho, toda concentrada debruçada sobre o seu dever de casa.  

        -"Alzira, minha amiga, o que você esta fazendo aí falando sozinha pelos cantos? Apelando para todos os santos?” Perguntei curioso, doido para saber o que se passava na  caixola da Ziroca. 

       -“Ora, se você fosse meu amigo mesmo não atrapalhava. Não vê que eu estou aqui toda enrolada, meditando que nem avestruz para ver se recebo uma luz ? A Dona Neusa passou um dever de casa que ‘de ver’ não tem nada é ‘de fazer’ mesmo! E se eu não der conta da tarefa, acabo virando uma “cede-éfa”. Resolvi então por um fim nesta bagunça e escrever uma denuncia!”  

        -“E vai denunciar o que, Alzirinha?  

       - “O abuso de poder do tal dever de casa.  Um vírus terrível que anda contaminando a Dona Neusa e todos as outras professoras das escolas primárias e olha que ja são várias! Eu diria mesmo que já se trata de um caso de calamidade nacional, daquelas que aparecem na primeira página do jornal!” Disse ela cada vez mais empolgada!

       - “E quais são os sintomas deste vírus tão grave?  

Nestas alturas eu já estava me sentindo até febril, com medo de ter pegado a mais nova doença do meu Brasil varonil!   

        - “O vírus chega devagarzinho, assim como quem não quer nada. E...  cacetada!  Entra pelos olhos e vai parar nos miolos! E como vírus inteligente que é, costuma chegar disfarçado de dever de casa abobado!” 

E vocês todos sabem, que tudo o que a Alzira conta é a verdade verdadeira sem eira nem beira. Enfim, ela começou a me contar o que havia passado e como tinha se contaminado. 

        - “Tudo começa com uma palavrinha paroxítona, conhecida de todas as Mães sofredoras do planeta. Eta eta!  É a tal “Pesquisa, que ojeriza! Aliás, “Pesquisa Escolar” um vírus com nome e sobrenome. Basta uma olhadela na palavra PESQUISA e a gente gela.  E aí o vírus propaga-se rapidamente, contagiando toda a família que aos poucos vai ficando doente. Dona Neusa, contaminadíssima, me transmitiu o vírus em letras vermelhas onde lia-se no meio da página do meu caderno":

Pesquisar o comportamento dos índios do alto Xingu.

 

E Alzira continuou... 

        "Cheguei em casa naquela sexta feira e já intoxicada fiz o que se pode fazer de pior:  Esqueci o beijo da mãe!  Que o Salvador proteja minha alminha ralada e mal tratada pelo estress nosso de cada dia.” 

Dona Maroca que não podia perder a oportunidade de ter um legítimo “momento Mãe”  foi logo indagando a pequena com o seu olhar maternal número sete, aquele de vedete.  

        -“Alzira Zulmira, volte já aqui! Será que eu estou transparente feito filha de vidraceiro? Não esta me vendo criatura? Desça já das alturas, e cumprimente sua Mãezinha, minha filhinha!”  

Vocês bem sabem que, cumprimentar, no dicionário das Mães, quer dizer dar vários beijos estalados e bem aplicados! Um só nunca chega, minha nêga!  Onde eu estava mesmo? Ah, sim, Dona Maroca suspirando e revirando os olhinhos para o céu, disse ainda:  

        - “Que cara é esta Alzira Zulmira? Você não esta com cara de festa!” 

       - “É a minha cara carrancuda, versão Deus me acuda! Mamãezinha você nem pode avaliar o que nos espera neste fim de semana tão banana.” 

        - “Desenbucha minha gorducha! Disse Dona Maroca, já se acalmando. E Alzirinha, certificando-se que a Mamãe estava sentadinha, respondeu baixinho em voz agonizante”: 

        - “Pes-qui-sa Es-co-lar, da para acreditar?  ...”  

Dona Maroca empalideceu, tremeu, correu, sofreu, e até esqueceu a implicância com a Alzira. Sabia exatamente o que significava este dever tão ameaçador: uma família inteira de mau humor! 

        -“Não , não, não, meu São Damião, tudo menos isso! Preciso ligar já para a Glória e ver se ela ja começou a pesquisa da Vitória. Se eu não correr elas vão ganhar da gente. A nossa pesquisa há de ser a melhor do continente!”  

Não tinha mais jeito. Dona Maroca já estava doentíssima, e a Alzira aflitíssima. 

         - “Alzira, vamos logo nos organizando e preparando todo o nosso arsenal porque nesta não vamos nos dar mal!” 

E do baú da Dona Maroca saíram coisas incríveis....  papel, papelzinho, papelzão, caderninho e cadernão, tesoura, cenoura, cola, mola, capa, chapa, caneta, maçaneta, hidrocor, lápis de cor, apontador, computador, lápis de cera, lapiseira, merendeira, revista, lixa, figa, ficha, novena, pena de ema, compasso, laço, papel almaço, borrachinha, tampinha, tachinha, figurinha, muitas medalhas e todas as tralhas que as mães juntam mais do que as gralhas. Tralha garantidora de nota 100. Amém! 

        - “Pois é, como você poder ver meu amigo, Mamãe se desesperou com razão! E haja São Damião! Porque se os índios do Xingu quisessem ser estudados, não se esconderiam na relva da selva. Mudariam-se para a Barra da Tijuca onde moram todos os famosos e seriam comumente chamados de nativos ‘emergentes’!   

         -“Nossa Ziroca, este vírus parece dos bravos mesmo!” disse eu pasmo que nem um asno.  

         - E isto é só uma pontinha do potencial destruidor deste vírus de horror.   Eu nem falei ainda do tal trabalho de grupo ou da nova matemática que deixaram até a vovozinha surumbática! Mas vamos falar disto um outro dia, porque hoje o vírus esta atacando é de caligrafia! Preciso agora escrever o meu tratado que já está muito atrasado.  

         - Muito bem Ziroca, ja entendi a deixa, e antes que eu me esqueça, vou deixa-la em paz na sua oca, comendo pipoca e fazendo pesquisa com a Dona Maroca! Um beijo e um queijo e até a próxima. 

          - “Ú Angu Maracatu Urubu Zebu Tatu Caruru Rebu Sururu” 

Fui saindo de fininho, ainda ouvindo a Alzira xingando em Xingu!

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Nota da Autora:

Os Indios do Alto Xingu não falam Xingu! Xingu é uma região e não uma língua.  Na verdade eles falam diversas línguas como por exemplo: Tupi-Guarani, Juruna, Caribé, Aruaque, Carapó e outras sem classificação ainda.  Maiores informações sobre essas línguas podem ser adquiridas na página de Julio Cezar Melatti.

Pesquise sobre os Indios do Parque do Xingu:

O Alto Xingu  *  Xingu - Estado de São Paulo

Situação do Indio no Brasil O Brasil Indígena   *  Dicionário Tupi-Guarani

Museu do Indio - FUNAI

Alzirez!  Confira as palavras que você não entendeu!

Assine o meu livro de visitas