Chiquinho Franzinho Escrito e ilustrado por Kiki Hamann
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Alzira me contou que de todos os seus primos, Chiquinho Franzinho era o mais levado, um desses meninos que vivem ralados. Era também o mais magrinho, desses que só comem um tiquinho. Tiquinho do que não presta, como brigadeiro de festa! Mas enfim, um talento o Chiquinho tinha, sabia empinar uma pipa como poucos, deixando os vizinhos loucos, pois a pipa sempre caía do outro lado do muro, sempre quando já ficara escuro. |
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- “Rapa daqui menino, que um dia eu te pego !” - “Já estou indo Seu Mané, só estou dando um rolé! Um dia desses ainda viro assombração e volto pra puxar o seu dedão. Bato as botas e dou no pira e o senhor ainda vai sentir saudades minhas seu ‘Traíra’ ! Viro alma penada, e a noite venho para te dar uma cutucada !” E assim Chiquinho Franzinho ia levando um vidão, de vento em popa, sempre de pipa na mão! Mas não havia santo que fizesse Chiquinho comer e sua mãe já se preocupava que pudesse adoecer. -“Chiquinho meu filho, um dia desses o vento te leva porque você está ficando um matusquela! Come seu jantar, se não vai empacotar. Criança que não come ‘sustância’ vira fracote que nem o Pixote. Papai do Céu acaba se zangando e manda os anjos virem buscar você e o seu bando !” Aí sabem como é que é.... ‘Praga’ de Mãe é bater valer. É Mãe querer, para acontecer. E a Mãe do Chiquinho não poderia ser diferente .... -“Chiquinho não vai soltar pipa que vai chover, bota um casaco e vem para dentro que está vindo aí muito vento!” Vento ventania, essas palavras no ouvido de um soltador de pipas é pura magia! E Chiquinho preparado, com a pipa de baixo do braço, saiu correndo sem escutar a Mãe. E como todos sabem também, Mãe que é Mãe, além de artista é meteorologista! Chiquinho passou cerol e deu linha, pulou o muro da vizinha, e correu para longe esperando que o vento empinasse sua pipa “ajiba ajiba” ! E o vento chegou soprando forte, desafiando a própria sorte de um Chiquinho, agora fracote. -“Oi Seu Vento, eu estava mesmo te esperando, já era hora, né ?” -“Hora do quê seu menino assanhado, onde já se viu Vento ter hora pra soprar, a gente sopra na hora que dá! Ou a não ser que uma Mãe aflita nos chame pra castigar menino que faz vexame ! Aproveita e me diga se você está comendo o seu feijão ou se agora deu para ser fujão?" -“Como tudo sim senhor, tudo tudinho, sem deixar nem um farelinho.... não precisa nem fazer aviãozinho! ” disse Chiquinho cruzando os dedos, morto de medo. E o Seu Vento, já chateado com as espertezas daquele capeta, resolveu dar uma lição pra não ser esquecida, e o moleque lembrar por toda a vida. Começou a soprar o mais forte que pôde, empinando não só a pipa mas como também o Chiquinho Franzinho. E o menino voou, agarrado na linha, com carretel, rabiola e tudo, sem dar uma palavra, mudo. Depois de alguns sobe-e-desces, Chiquinho resolveu abrir o biquinho. -“Sabe Seu Vento, o nosso papo está muito bom, mas tenho que ir puxando, a minha Mãe, já deve estar reclamando que eu ainda não apareci. E além disso me deu aquela vontade de fazer xixi !” -“Ah, é mesmo Chiquinho, por um momento achei que você estava com medo, de um ventinhozinho de nada desses! Vou soprar mais algumas vezes!” -“Não Seu Vento por favor me ponha no chão !” E o Vento percebeu, que o Chiquinho agora estava no papo, e depois deste susto iria comer até sapo! E partiu para as negociações... -“Sabe Chiquinho, eu estou gostando tanto de estar aqui com você passeando. Sou um cara muito sozinho, não é sempre que eu encontro um amiguinho valente que nem serpente, não estou com vontade de devolver você, não! Aqui comigo é bacana, você não vai precisar comer nem banana!” E o Chiquinho, gaguejando falou baixinho..... -“Seu Vento Ventania, gosto mesmo de estar aqui com o senhor, mas é que a turma lá de casa já deve estar com saudades de mim.... Mamãe já deve estar preparando a janta, fritando aipim. Ou pior, a coitadinha, deve estar ralando os joelhos, rezando pela minha pobre alma pensando que eu estou morto e torto embaixo da terra, virando comida de minhoca preta que dá na horta.... E por falar na janta....” -“E por falar na janta, vamos fazer um trato de homem, antes que você me conte também que é lobisomem. Eu deixo você ir pra casa agora e você promete que vai comer de tudo, até abóbora!” Nada mal esse trato, para um menino sabido que estava azedo de medo e doido para estar de volta ao lar, nos braços da Mamãe, pro que der e vier..... Mesmo que o que vier, seja chuchu ensopado, ou marreco guisado, ou quiabo babado, ou até fígado empanado.... Argh !!!! -“Negócio fechado Seu Vento, mas só com uma condição ! Eu daqui para frente comerei de tudo que a Mamãe aprontar, se o Senhor, vier hoje lá em casa jantar !” Tudo resolvido, o Vento estava feliz da vida, por ter ensinado ao Chiquinho a lição devida. Já estava pronto para a aterrissagem, quando ouviu Chiquinho falar baixinho.... -“Só uma coisinha Seu Vento, esqueci de dizer para o senhor que a janta hoje é buchada de bode, arroz com jiló para a gente ficar bem forte !” E assim a Alzira me explicou, porque nunca mais ventou por essas bandas. O Seu Vento ainda está com dor de barriga, e o Chiquinho nunca mais se meteu briga. Nunca mais implicou com o Seu Mané com quem vivia pegando no pé. Nunca mais fugiu, nunca mais mentiu. Voltou a comer de tudo.... Aliás de tudo, não, abóbora de jeito nenhum, e não adianta dizer que é jerimum. E assim Alzira Zulmira contou...
Jamais solte pipa perto das redes elétricas!
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