Historia Para Boi Dormir   

Escrito e ilustrado por Kiki Hamann -  Em breve ouça essa história em Real Audio!   

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Era um dia de chuva e frio, desses que dá calafrio em espinha de peixe de mar arredio! E não tem nada melhor para se fazer em dia de chuva do que ouvir umas boas histórias comendo uva.  Uvas verdes, minhas favoritas, das caras de encontrar e boas de saborear! Azedinhas de franzir a boca, estalar a língua e fechar os olhinhos bem apertadinhos....  Mas enfim, isso já está virando conversa para boi dormir!  Onde é que eu estava mesmo ?  Ah lembrei, estava um dia de chuva, e eu resolvi visitar minha amiga Alzira Zulmira, com quem gosto muito de conversar e ficar de trá-lá-lá. 

Me espantei ao encontrar Ziroca de camisola em plena luz do dia, prontinha para ir tirar uma soneca e acordar com meleca!

 

-“Zirinha, criaturinha, não está na hora de dormir. Por que você está de camisola?  Venha cá tomar uma coca cola e  jogar conversa fora.”

 -“Ah, hoje não vai dar, não senhor.  Estou ocupadíssima, e atrasadíssima.  Com licença que eu vou chegando, vou partindo, vou saindo, vou “sartando fora” !  Disse ela rindo”

- “E essa pressa toda é para ir dormir, Alzira? Me conta direitinho o que você está aprontando?”

             - “Aprontando nada! Vou só tirar uma soneca, pregar o olho, puxar um ronco, sonhar com os anjos, cair da cama, tirar uma pestana, dormir feito uma pedra.... Enfim, a mesmice de sempre, compreende?  E além do mais, preciso ganhar do Sr. Tonhão, que cada dia que passa está ficando mais grandão.” 

             -“Não estou entendendo nada !  Vai Zira, me conta logo essa história. Conta vai!” Pedi a ela, quase babando, e fui logo me sentando.

 -“ ‘Vixe’, você não é fácil!  Mais saiba que se eu morrer pequenininha, vai ser sua culpinha!”

  E Alzira se aninhou na sua cadeira favorita – a cadeira mágica, que faz pensar até quem não tem pensamento, feito a Dona Rita.  

            -“Olha, o que eu vou lhe contar é a mais pura das verdades. Verdade verdadeiríssima, para ser guardada em segredo, porque trata-se de uma maldição que fizeram para o Sr. Tonhão. Jura que vai guardar segredo ?”

  -“Juro”.

  -“Jura pelo que?”

  Isto já estava ficando muito complicado... mas resolvi concordar, porque quando Alzira Zulmira engrena, não tem como fazer parar.

            -“Juro pelo que tem de mais sagrado no mundo!”

             -“É pouco. Jura pela alma da sua vizinha mortinha e durinha dentro do caixão?”  

            - “Ok, você venceu Alzira, juro” !  Falei aliviado, porque não tenho vizinha. “E de quebra, juro também pelo cachorro que tem três pernas, pelos ratos e sapos torrados, e pelos olhos que essa terra há de comer!”

 Ela parecia satisfeita com o juramento e foi logo me dizendo...

-“ Foi que nem hoje, numa noite de lua cheia e muita chuva, que eu conheci o Zuza, o anjo da guarda do Tonhão. Eu estava rolando na cama, de pijama, quando ele apareceu na minha janela com uma vela. Cruz credo, achei que tinha chegado a minha hora.  É hoje que eu vou! Ia,mas não fui.  

-‘Eu vim aqui, ter uma conversinha com a senhora, em nome dos anjos da guarda das crianças que não querem dormir cedo. Já estou quase desempregado. Isto sem falar em cansado, largado, fora de forma , etc e tal.  Coisa nada boa para um Anjo de Quintal!’ 

- É bem que eu reparei que o senhor estava meio cheinho. Mas o que faz um Anjo de Quintal, Sr. Zuza Etc. E Tal?  

-‘Ah, um Anjo de Quintal tem a maior importância na Ordem Celestial! O nosso dever é puxar o pé das crianças quando elas estão dormindo, para que elas cresçam. Se não fossemos nós, ficariam pequenininhas, miudinhas, toquinhas para o resto da vida.  E quando isto acontece um anjo é demitido. E anjo demitido fica deprimido. A Dona Anja que o diga!’

- Aí eu falei para ele, ‘E eu com isso?’  

-‘Você com isso chouriço.  O que está acontecendo, é que a Sra. Dona Alzira, não quer mimi.  Não quer naninha.  Então, quando o seu anjo vem de noite puxar o seu pé, não tem pé para puxar.  E acaba indo na casa do vizinho, puxar o dedão do pé do Tonhão. E o Tonhão esta ficando cada dia mais grandão, e eu, sem um tostão.

Já tem até anjo fazendo fila na janela dele.  Desta maneira, vou acabar perdendo o ofício e vou ter fazer comício e virar Anjo Político , que é o que fazem os anjos desempregados.’

- Ele parecia uma matraca falando sabe.... 

 -‘Claro que tem sempre a possibilidade de fazer um bico, tipo vender lugar na fila, ou fazer uma rifa.... Mas para isso eu não levo jeito não, quero de volta o pé-zão do meu Tonhão

Aí eu avaliei a situação...  o Tonhão já era um cabra ruim de encarar, do jeito que era. Se ele crescesse mais.... ai ai ai. E  todos os meus ais... Estaria frita, lascada, ferrada, acabada, ripa na chulipa, neca de bitibiriba.  Assim pequetita, não iria poder me meter em briga.  Então compreendi que para crescer as vezes a gente tem que morder um osso duro de roer.

Recado dado... e eu se fosse você ia puxando o barco, e saia de fininho, como quem não quer nada, bem de mansinho.  Se não, pode apostar, o seu anjo da guarda é capaz de se mandar pra montar uma banquinha e vender pastel para aqueles anjos lá da fila.  Entendeu agora, porque gente velha encolhe?  É tudo uma questão de oportunidade de trabalho. A gente tem que fazer por onde, se não o bicho come.  E eu estou bem ca reparando com meus olhões que você já bem encolheu uns dois dedões.”

 De repente percebi que estava morrendo de sono.  E vamos nessa que está bom à beça!  

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